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sábado, 14 de setembro de 2013

O dia em que eu virei maratonista - parte 2

... Finalmente, às 8h30 da manhã, foi dado o tiro da largada. "BUM!" Começou. Eu estava ali, correndo a maratona, e isso era real...

Logo veio a placa de 42km. Longe de significar o fim... era o começo! Havíamos percorrido os 195m e faltavam 42km! As plaquinhas deles eram invertidas, mostrando sempre quanto faltava. Como no meu relógio Garmin eu via a distância já percorrida, até que essa prática deles foi interessante. (Fazer a conta não é bem simples, mas, em 42,195 km, nem sempre você pode contar com o intelecto). Outro detalhe feliz: As plaquinhas eram em quilômetros e não em milhas. 

Como eram apenas 1448 corredores, não foi aquela loucura de muita gente grudada, e assim a massa de corredores não nos impedia de ver o belo caminho que percorríamos. Fazia sol, a sensação térmica era bem agradável e devia estar por volta de 14 ou 15o C.

Vi um tênis rosa igual ao meu! Aproximei-me da corredora e disse: “I like your shoes!” Ela viu os meus e sorriu!

Começamos correndo em uma rua mais pacata, passando por casas residenciais e comerciais. Já logo no começo, alguns moradores estavam nas calçadas pra ver a maratona passar, nos dizendo coisas de louvor. 

Aqueles torcedores deram um tempo em sua vida local para participarem um pouquinho da vida de cada um que estava de passagem. Eles faziam o som de palmas, exibiam cartazes com frases encorajadoras ou engraçadas e gritavam em francês ou inglês. 

O que me marcou logo no início foi um grito de "BON VOYAGE!". Não tenho certeza se foram essas as palavras, mas a percepção de tê-las ouvido, bastou. Lembrei-me do meu treinador desejando uma boa viagem antes do meu primeiro treino de 30 km (http://correndodemais.blogspot.com.br/2013/07/meu-primeiro-treino-de-30km.html). E ali estava eu, começando uma nova viagem! (Uma viagem dentro de outra). E como ela seria longa, associei a frase em francês com outra em inglês, que eu nem sabia de onde vinha, mas ficou piscando na minha cabeça: "ENJOY THE JOURNEY". Eu havia decidido: já que eu estava ali, curtiria a paisagem e cada quilômetro! 

No começo isso foi fácil. Corríamos tranquilamente e parecia que cada quilômetro chegava e passava num tapa. Assim fomos indo. Na cidade de Lévis, onde a corrida teve início, passamos no meio de parques. Uma vista completamente diferente daquela das corridas de rua em São Paulo. Correr por ali era deveras aprazível. Verde de todos os lados. Sem contar que a topografia de todo o início da prova nos era favorável: era plana e até com descidas (daquelas nem tanto perceptíveis aos olhos, mas sim às pernas).

Vi outro tênis rosa igual ao meu! Aproximei-me desta outra corredora de bom gosto e disse: “I like your shoes!” Apontei os meus e ela entendeu! Sorriu e disse que eles estavam indo bem! (Mais para o final da prova ela cruzaria comigo de novo, apontaria para o meu tênis e me daria força!)

Continuamos. Passamos por casas maravilhosas, por algumas bem mimosas, e lá estavam aqueles desconhecidos, nos dando uma impulsão de alegria com suas palmas e dizendo que estávamos indo bem!

Lembro-me de ouvir “carruagem de fogo”, daí já era impossível não se emocionar desde o início!

Logo depois um cartaz dizia: "CHUCK NORRIS NEVER RAN A MARATHON, YOU GOT THAT!" Impossível não rir e se animar!

Um pouco à frente, haviam ligado o som e estava tocando YMCA! É claro que eu levantei os braços pra dançar junto com a torcida! Era impossível não curtir essa viagem! 

De repente, entre os moradores que viam a maratona passar, avistei três menininhas enfileiradas com a mão levantada. Passei batendo nas mãos das três. Era completamente impossível não se motivar!

Os quilômetros iam passando e eu ainda não havia chegado à metade da prova. Sempre havia postos de hidratação. Distribuíam água e, muitas vezes também, isotônico... Bebia uns dois golinhos em cada um dos postos, como o Marcão me ensinou, e continuava correndo tranquilamente.

Havia tomado metade do meu primeiro gel com 1 hora e pouquinho de corrida, por volta do km 11. Eu só tomava quando via que haveria água em seguida, para poder dar uma golada após aquele sabor doce do carboidrato. 

Mil coisas passando pela cabeça, e às vezes falava uma ou outra coisa pro meu pai, que me acompanhava. Quando ele via que eu estava falando muito, ele já me cortava. Assim tentei me manter em silêncio para poupar energia. Os corredores estavam, em geral, bem silenciosos e concentrados nos seus passos. Até estranhei quando umas senhoras correndo por perto não paravam de tagarelar!

Por quase todo o caminho, avistávamos o rio. E em alguns momentos ele ficava do nosso ladinho. O vento soprava contra, e isso teoricamente dificultava a nossa corrida, mas era muito gostoso e refrescava o calor. Abaixo, vocês podem verificar o mapa da maratona:

Por volta do km 20, meu pai parou para ir a um banheiro (havia alguns químicos em vários pontos do percurso). Ele disse para eu continuar, que ele me alcançaria. Como não estávamos cercados por um mundo de gente, isso era possível. Falei pra ele procurar por um boné e um tênis rosa. Continuei sozinha e logo meu pai veio se juntar a mim. Havíamos cruzado a metade. Faltava meia maratona. E eu me sentia muito bem. Como se tudo que veio antes, tivesse servido como aquecimento. Agora sim a maratona começava a começar!

(continua no próximo post...)

sábado, 7 de setembro de 2013

O dia em que eu virei maratonista - parte 1

Acordei às 5h20 da manhã no tão esperado dia 25 de agosto de 2013. É verdade que eu já tinha acordado algumas vezes antes, mas, graças a Deus, não tinha passado a noite em claro.

Acordei sem sono, sem medo, ou traço de arrependimento. A ansiedade havia dado lugar para uma grande vontade de ir além. Uma vontade de conquistar.


Eu viajava com meus pais e tios. E naquela manhã, eu acordava num quarto de um castelo. – Para alguns momentos na vida, extravagâncias como essa valiam a pena. – Apesar disso, o castelo-hotel não servia café da manhã. Das nossas comprinhas do supermercado, comi pão com cream cheese + geleia e um pedaço de uma banana de casca vermelha. Tomei chá, preparado pela minha mãe, com a água quente da cafeteira do quarto.

Sem muita demora, vesti a roupa que eu escolhera com carinho: um short mais compridinho, para não causar atrito entre as pernas. Por cima dele, uma bermuda mais soltinha, que tinha um bolso de cada lado. (Eu precisava ter bolsos para guardar os géis de carboidrato.) Vesti o top que eu achava mais confortável e uma camiseta de manga curta e tecido levinho – ela era bonita e combinava com meu tênis rosa. Coloquei o relógio Garmin no pulso e o frequencímetro abaixo do top, por baixo do qual coloquei micropore e passei um “protetor” que serve como uma vaselina pra proteger do atrito, mas não é melecado (comprado na feira da maratona, no dia anterior).


Fui ao banheiro. Passei vaselina no pé, para não fazer bolhas. Coloquei uma meia grossinha para proteger bem e calcei meu Wave Sayonara. De repente, o pé começou a coçar! Arranquei a meia e coloquei uma mais fina. Ufa! Peguei uma camiseta de manga comprida para proteger do frio da manhã (depois a guardaria na mochila do meu pai que deixaríamos no guarda-volumes). Boné na cabeça. Protetor solar no rosto.

Nos bolsos, guardei 3 géis de raspberry da marca CLIF, que eu tinha gostado muito quando experimentei na meia maratona de Disney. Meu técnico Marcão havia dito que era a melhor marca! E como não encontramos no Brasil, compramos lá em Québec, na feira da maratona. Detalhe: na prova eles distribuiriam gel em alguns postos do percurso, mas eu preferi me garantir com aquele que eu já conhecia e gostava.

Era hora de sair. Meu pai e eu precisávamos chegar até às 7h00 na área de onde sairia a balsa para a cidade de Lévis. Depois da travessia, um ônibus nos levaria para o local da largada. Minha mãe iria em seguida , com meu tio, para outro ponto da cidade de Québec, de onde sairiam ônibus que os levariam para a largada da meia maratona (exatamente na  metade do mesmo percurso que  eu faria).

Caminhando com meu pai do hotel até a balsa, rezamos.

Adiante, avistamos nossos companheiros daquele desafio. Então, fomos nos juntar aos bons! Naquela manhã também haveria a corrida de 10 km e a de 21,1 km, mas os participantes dessas estavam em outros locais. Naquele pedacinho eu estava cercada de “gente grande” de todas as idades, corpos, nomes e rostos. Certamente, muitos deles eram “veteranos de guerra”. E eu estava lá para tentar uma vaga nesse time de resistentes.

Logo entramos na balsa. Fiquei com meu pai na parte de dentro, pra protegermos do vento gelado, e só saímos um pouquinho pra ver a linda paisagem. Do outro lado do rio estava o "nosso" castelo! (Não levamos máquina fotográfica, mas salvamos aquela vista panorâmica na nossa memória). Alguns corredores encontravam-se sozinhos; outros, com amigos ou familiares. Todos, porém, pareciam concentrados. A barca movia-se silenciosa. Eu, no meu ímpeto interno, queria conhecer todas aquelas pessoas e saber de suas histórias até ali. Mas também fiquei quietinha... Foi quando ouvimos alguém falando em português.
  
Dois amigos brasileiros. Marcio e Luis Gustavo. O Marcio também iria debutar na maratona. E como Brasil é Brasil, de repente já éramos antigos conhecidos. Sentamos do lado deles no ônibus. Chegamos num complexo fechado, que era um amplo saguão de hotel. Lá tinham grandes banheiros limpíssimos (muiiiito melhor do que se fossem banheiros químicos!). Pela primeira vez a fila das mulheres era menor. Isso se devia ao fato de estarmos em menor número (dos 1448 participantes, 1082 eram homens e 345, mulheres).

Ali no saguão também cruzamos com o Bruno Bueno, outro brasileiro que havíamos conhecido no dia anterior, na feira da maratona. (Aliás, hoje percorri a lista dos participantes desses 42,195 km de Québec e descobri que encontramos todos os outros 3 brasileiros inscritos ali!)

O frio começou a ir embora. Tirei a manga comprida, pra ir me aclimatando. Fomos procurar o guarda volumes. Era num caminhão estacionado do lado de fora. Saímos. A música que estava tocando começou a me contagiar! "We've come too far to give up who we are. So let's raise the bar and our cups to the stars. She's up all night 'til the sun. I'm up all night to get some. She's up all night for good fun. I'm up all night to get lucky"

Foi nesse embalo que se sucederam outras tantas músicas animadas. Eu queria viver aquele momento e nenhum outro! Tomei um pouco d'água que a organização tinha se encarregado de providenciar. A estrutura da prova era fantástica e eu estava super entusiasmada com aquela concentração inicial!

Ficamos conversando com nossos novos amigos, até que começou a contagem regressiva de minutos e fomos nos posicionar um pouco mais pra perto da largada. Meu pai tinha dito que correria essa maratona ao meu lado. Não queria lhe pedir isso, já que ele diminuiria muito o ritmo dele, mas confesso que fiquei feliz e isso me deu maior segurança.

Finalmente, às 8h30 da manhã, foi dado o tiro da largada. "BUM!" Começou. Eu estava ali, correndo a maratona, e isso era real.

(continua no próximo post...)