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domingo, 10 de agosto de 2014

Meu pai me ensinou a correr

Meu pai não me ensinou a andar... ele me ensinou a correr!

A gente corre, o tempo também, mas o amor é uma constante.

Esta foto não está muito nítida, mas essa, com número de peito e cabelos ao vento, sou eu! rs
Ao lado, de cinza, vermelho e preto, meu pai está me "puxando" numa corridinha de crianças.
A foto estava no álbum de 1994/1995, logo, eu tinha 6 ou 7 anos.

Eu e meu pai após cruzarmos a linha de chegada da minha primeira maratona.
Esta foto foi há quase um ano atrás, em 25/08/13.

domingo, 1 de junho de 2014

Meia-maratonando numa (Ale)manhã fria

O despertador tocou e precisávamos levantar naquela manhã fria de domingo, na Alemanha. No quarto de hotel, tomei um chá e comi alguma coisa que tínhamos das compras no supermercado.

Vesti uma bermuda que tinha zíper atrás, onde eu guardei um gel de carboidrato. A camiseta que escolhi era de manga comprida. Boné, Garmin, cinta do frequencímetro, meia, tênis, número de peito. Eu estava pronta. A sacola com uma troca de roupa para o pós-corrida já estava separada.

Todos prontos. Já no elevador, encontramos um alemão que também estava indo para a maratona. Apesar de termos visto mapas e pedido explicações, foi mais fácil segui-lo...

Saímos do hotel e, para nossa alegria...

"Chovia. Chovia uma triste chuva de resignação"
(verso do "Poema só para Jaime Ovalle", do Manuel Bandeira)

Resignada, saquei da sacola minha capa de chuva.

Seguimos o corredor alemão até a estação de metrô mais próxima dali. O transporte público era gratuito naquele dia para todos os inscritos na maratona de Düsseldorf. Acontece que, além do meu pai e do meu irmão, estávamos com a Ana, espanhola que meu irmão conhecera no intercâmbio e se juntara à nossa trupe dois dias antes, em Düsseldorf. Precisávamos comprar um bilhete de metrô para a Ana e não encontramos o lugar... Bem, ela estava com a gente e estávamos com pressa... o alemão que estávamos seguindo disse que naquele horário, por causa da maratona, não teria problema... E ele coroou a manhã com a frase: "No risk, no fun!" Não esquecemos mais (até porque saiu da boca de um alemão - de quem temos uma ideia de maior rigidez).


Passadas algumas estações, nosso novo amigo alemão disse para continuarmos e descermos na próxima, porque ele sairia ali para encontrar alguns amigos. Continuamos e seguimos outros passageiros com números no peito. Uma legião de encapuzados foi se reunindo. Todos procuravam abrigar-se um pouco daquela chuva, mas chegara a hora de guardar os casacos e capas no guarda volumes. E assim, não só as meias e os tênis, mas também nossas roupas começaram a ficar mais frias e pesadas.
meu irmão Lucas, prestes a debutar na maratona + eu + meu pai José Reynaldo, prestes a correr sua 13a. maratona

Caminhamos para a largada. A Ana teve tempo de tirar algumas fotos da gente. Ela me esperaria no km 21.


Na grade lateral, momentos antes da largada, muitas pessoas abandonavam suas capas e agasalhos.
Eis que a prova se inicia e os primeiros passos não encontravam espaço. Uma multidão nos cercava e correr era quase impossível.

O Marcão disse que eu não devia correr com meu pai e meu irmão, porque eles correriam os 42km, sendo que a segunda metade deles seria mais rápida que a primeira e eu correria apenas a primeira, e estava lá para buscar um recorde pessoal nos 21km.

No começo, meu pai foi me segurando, mas com 1,5km eu já criara asinhas nos pés e eles queriam voar mais rápido! Chegara a hora de eu seguir em frente, sozinha. Despedimo-nos e alcei meu vôo por entre diversos outros corredores.

Ainda havia muita gente aglomerada e eu ia me embrenhando pelos espaços vazios. Meu Garmin estava coberto com a manga comprida da camiseta e a proposta era exatamente não olhar nenhuma vez para ele. É claro que desde quando constatei que choveria do começo ao fim da corrida, fazendo tênis e roupas pesarem mais, eu já estava relevando aquela ideia de diminuir o tempo. De qualquer forma, eu já estava lá e, com ou sem recorde pessoal, eu decidi que aquele momento seria para me divertir.

Chovia e fazia frio, mas os quilômetros chegavam e passavam logo. Eu estava sozinha no meio de muitos estrangeiros e diferentemente de outras provas que corri no exterior, dessa vez eu não compreendia nenhuma frase que era dita ou que estava escrita nos cartazes exibidos por aquela gente que torcia nas ruas.

Não fosse por isso. Não deixei de festejar! Aqueles corredores ao meu lado estavam inscritos para os 42km, e como eu correria a metade disso, me sentia apta a fazer certas extravagâncias (das quais eles deviam se poupar) como: levantar as mãos para o alto, bater palmas, bater nas mãos dos torcedores, e gritar: "BRASIL!"

Às vezes sentia que um ou outro corredor olhava pensando: "Por que ela não poupa esse ânimo?" e muitas vezes me peguei pensando o quanto gostaria de explicar para eles que eu pararia no km 21, portanto, que não se preocupassem comigo ou que não se incomodassem se eu estivesse deixando alguns deles para trás! Deixei para trás um tão lindo com quem eu teria casado! rs. Percebi que ele queria ter me acompanhado, afinal, muitos homens não gostam muito de serem ultrapassados por mulheres! Mas, eu realmente não estaria naquele ritmo se fosse para encarar a maratona inteira!

Apesar disso, 21km era uma distância considerável e seria bem complicado clarificar a mente de pensamentos por todo aquele percurso. Acontece que todos os pensamentos me vinham à cabeça em outras línguas. Lá estava eu falando comigo mesma em pensamento, em inglês, em espanhol e até algumas coisas em francês. Por que cargas d'água? Bem, acho que era o espírito da viagem!

Lá estava eu, correndo de km em km no meio de desconhecidos. Dentre eles, marquei alguns que estavam sempre por perto. Um casal em que a mulher usava uma blusa rosa. Outro homem também estava sempre por perto, com uma blusa azul quase como quadriculada com tom de coral. Eram cores marcantes e eu decidi que não me afastaria muito dessas pessoas. Adotei eles como parâmetro para possivelmente estar mantendo um ritmo, que eu nem imaginava qual era.

O percurso era bem plano e isso facilitou muito a vida. Sempre que surgiam postos de hidratação, eu pegava um copinho de água, tomava os básicos 2, 3 golinhos e jogava o resto, para não ficar com o estômago pesado.

Me distraí algumas vezes e perdi uma ou outra plaquinha dos quilômetros e não queria perder a do 21. A essas alturas eu já havia pisado em poças caprichadas pra completar o enxarcamento do tênis. Eu queria chegar logo e comecei a perguntar se a marcação do 21 estava mesmo à frente. Conversei com um casal que me assegurou que ainda passaríamos pela metade. Contei que eu pararia ali e eles disseram que eu estava muito bem e que provavelmente conseguiria completar os 42 se quisesse. Fiquei um pouco tentada, confesso. Mas, eu não havia treinado como para minha maratona e eu não queria me arriscar a ter qualquer complicação ou lesão por um simples capricho de superação.

A marcação da metade da prova deles que seria a minha linha de chegada estava próxima. Então me despedi daquele casal simpático e fui "cruzar" a chegada que eu me determinara. E ela estava ali, junto do tapete que conectava-se ao chip, marcando meu tempo oficial para aquela distância. Pisei, levantei os braços em uma comemoração particular e logo bati no stop do Garmin. 1h55 e uns bons quebrados, mas que me mantinham abaixo da minha marca pessoal para os 21km de 1h57 e outros tantos quebrados!

Mãos e coração ao alto! E chovia. Chovia uma alegre chuva de bênção e satisfação.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Treinando na Alemanha

Na terça conversamos com o Marcão, nosso treinador. Estávamos na Suíça e comemos muito chocolate. A boa notícia é que o Marcão contou que chocolate ajuda a prevenir resfriado, o que é ótimo, já que precisamos estar bem no domingo que vem, para a maratona (e a minha meia) de Dusseldorf! (A tática do chocolate era usada pela Seleção Brasileira de Atletismo!)

Para não enferrujarmos (e para queimar parte do chocolate!), ontem treinamos em Heidelberg, na Alemanha! 

Seguem algumas fotos...








segunda-feira, 21 de abril de 2014

Correndo aos pés dos Alpes

Uma semana antes da maratona deles e da minha meia, treinamos um pouquinho em Lucerne,  na Suíça, com essa vista sem gracinha... rs






terça-feira, 15 de abril de 2014

Brincando de correr

Duas semanas antes da meia maratona de Dusseldorf, havia uma meia maratona por aqui...

Meu treinador já havia dito que focaríamos em Dusseldorf, e por isso não era para eu correr a meia da Corpore no dia 13 de abril... Eis que recebo um email do meu pai dizendo que tinha feito inscrição para mim... Conversei com o Marcão, e ele concordou que eu corresse, desde que eu apenas usasse a provinha como um treino e não fosse lá pra "fazer tempo". Eu precisava estar descansada para Dusseldorf. O combinado foi manter o ritmo de 6:10 (= 6min e 10s por km). 

Experimentei algumas sensações incríveis ao longo desses 21,1km de ontem...

Em um treino qualquer, correr uma meia no ritmo de 6:10 seria muito bom (para mim). Incrível como em uma provinha 6:10 parecia tãaao tranquilo, tão devagar! rs Eu via corredores passando por mim e queria acompanhá-los, mas eu precisava conter essa vontade e foi então que descobri que segurar o ritmo em uma prova é quase tão difícil quanto dar o seu melhor! É incrível o quanto a adrenalida mexe com a gente! E ela tem tanto poder que nos deixa com super poderes também! :)

Como eu estava indo mais devagar do que poderia, o tempo também se demorava, e a prova parecia mais longa... Sem música e sem companhia, eu corria observando os outros corredores, observando a minha postura e minha própria corrida, e sorrindo para todas as fotos que apareciam! =D

Lá pelo km 10, encontrei um corredor que corria descalço. Ele era da Bolívia (ou Colômbia!)... Na hora entendi errado, ele me corrigiu e acabei ficando com os dois países na cabeça! Ele morava aqui e já estava correndo descalço há uns 8 meses. Logo adivinhei que ele havia lido o "Born to Run" do Christopher McDougall. Ele contou que logo gostaria de correr uma maratona, e descalço! 

No meio da meia, uma foto corrida
Continuei minha corrida solitária e observativa e encontrei meu amigo Vaine, que estava correndo bem mais rápido, mas largou atrasado, por isso estava cruzando comigo ali pelo meio da corrida. Ele tirou algumas fotos enquanto corríamos, conversamos um pouco e ele apressou o passo dele, enquanto eu segurei o meu.

Eu não estava mantendo o ritmo de 6:10... Estava mais entre 6:05 ou 6:06... 

Faltando 1km para completar a prova, eis que vinham correndo meu pai e meu irmão, que estavam aumentando o percurso, já que eles tinham treino de 30km no dia. Junto com eles, vinha outro corredor que estava correndo 35km naquele dia: Tadeu Guglielmo. Ele já correu maratonas nos 7 continentes e agora está treinando para a Two Oceans, uma famosa ultramaratona, com distância de 56km, que ocorre na Cidade do Cabo, África do Sul. E que, por sinal, será agora no dia 19 de abril! Boa sorte para o Tadeu e para a Andréa Corrêa que também correrá a Two Oceans!

Nem preciso dizer que acompanhando os três feras, corri esse último km bem mais rápido do que deveria, né? rs Assim, segurando o quanto pude, fechei a meia (21,1km) para 2:08:03, com média de 6:04min/km. E foi assim que corri uma meia maratona brincando. Tudo pela meia de Dusseldorf que está chegando!

Final do meu "treino" de 21km e treino de 30km deles. Conversando com o amigo Yves, tesoureiro da Corpore

E agora estou contando os dias para ficar de férias e viajar com os meus meninos!

Selfie com eles: pai maratonista e irmão quase-maratonista

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Oktoberfest em abril! #partiu

Hoje faltam exatamente 20 dias para o meu irmão virar maratonista!

Meu pai correrá a maratona com ele, como correu comigo em Québec, no dia 25 de agosto do ano passado.

Eu também pretendo acompanhá-los, mas só até o quilômetro 21, onde terminarei a minha prova.

O cenário dessa vez será Düsseldorf, na Alemanha. E no final dos 42km, estarei esperando meus dois maratonistas com uma cerveja para cada um!



Segue um vídeo da cidade para quem tiver curiosidade! Não encontrei em português, então coloquei esse aqui em espanhol.


Mais uma vez, seremos corredores viajantes! E dessa vez tentarei mandar notícias e fotos de lá!

E hoje faltam exatamente 10 dias para viajarmos!

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Conversa corrida com José Reynaldo Figueiredo

Hoje trago para vocês a primeira entrevista de muitas que publicarei aqui no blog!

Para começar, escolhi aquele que me apresentou ao mundo da corrida: José Reynaldo Figueiredo, o meu pai.

José Reynaldo Figueiredo, 55 anos, cirurgião-dentista, diretor técnico da Corpore Brasil, 12 maratonas completadas, mais de 60.000km rodados (1 volta e meia pela Terra)

Pai, quando você começou a correr?

JRF: Sempre gostei de jogar futebol, e para ter uma boa performance, eu vivia correndo. Mas a corrida entrou pra valer na minha vida quando entrei na faculdade. Em São Paulo, eu passei a acompanhar meu irmão Paulo no parque do Ibirapuera, para fazer “teste de cooper” (12min de corrida). Na época, nós dividíamos o Parque do Ibirapuera com carros e motos – algo inimaginável nos dias de hoje. Quando ia para Alfenas - MG, onde estudava, eu fazia treinos pela manhã, antes de ir pra aula. (No final da década de 70, não era comum correr pelas ruas sem um motivo aparente, especialmente no interior de Minas).


E depois da faculdade?

JRF: Bem, eu gostava muito de correr e ia para o Parque do Ibirapuera com um tio que se encontrava com um grupo de corredores, com o qual passei a treinar. Esse grupo foi, posteriormente, chamado de “Ibirapuera meio-dia”, devido ao horário em que treinávamos. Foi com o incentivo deles que corri minha primeira maratona, em 1985, em Santos.

Quais foram as suas maratonas?

JRF: Santos/85, Rio de Janeiro/86, Blumenau/90/91/99, Washington DC/92/93/97, São Paulo/96, San Diego/04, Disney/12, Québec/13.

Qual foi o seu melhor tempo? 

JRF: 3h20min, em 1992, em Washington DC (média de 4min45s/km)

E qual foi sua maratona preferida?

JRF: Não tenho uma preferida. A primeira foi especial, apesar de muito sofrida: largamos com 32o C. Em Washington DC fiz meu recorde pessoal. Em San Diego fiz minha inscrição na véspera e corri sem treino específico, mesmo assim foi ótima. Em 2012, uma semana antes eu estava na maca da fisioterapia e não tinha ideia se conseguiria correr, mas acabei fazendo um tempo muito bom. Em Québec, o percurso mais bonito e especial, porque corri do seu lado. 

A maratona é a sua prova preferida?

JRF: É a minha distância preferida e por isso eu gostaria de ter corrido mais maratonas.

O que te impediu?

JRF: Contusões, 4 cirurgias no joelho, 1 mestrado e 1 doutorado.

Quais são seus próximos desafios na corrida?

JRF: Já estou com passagem comprada para correr a maratona em Dusseldorf (Alemanha) ao lado do meu filho Lucas (será a primeira dele). Meu treinador, o Marcão, que mora na China, quer que eu vá correr em Xangai no final do ano. Verei se será possível. Agora, para o ano que vem, com 56 anos, a minha meta é correr os 56km da Two Oceans (prova na África do Sul que vai do Oceano Atlântico ao Oeano Índico). Parece uma boa combinação.

Como a corrida influencia a sua vida?

JRF: A corrida é a atividade física mais simples, barata e com resultados mais rápidos para a saúde. É meu tempo de colocar a cabeça em ordem. A corrida melhora minha condição física, me ajudando no trabalho, e é minha terapia. Na verdade, é o meu vício, mas é um “vício do bem”. 

Qual a sua opinião a respeito desse “boom” de corredores nas ruas, parques e academias?

JRF: Eu acho que chegou tarde, porque os benefícios da corrida são inúmeros. Eu me admiro com o fato de que isso tenha acontecido apenas agora. Nos Estados Unidos, década de 80, já se estimava que mais de 25 milhões de pessoas corriam regularmente. Ainda não temos nem 10% desse número de corredores, mas é inegável que o número aumentou. Só espero e desejo que isso não fique apenas como um modismo “para postar no facebook”.

Você tem alguma dica para quem gosta de correr?

JRF: Somando-se às dicas de praxe como fazer avaliação médica, controlar a alimentação e saber ouvir o seu corpo, é importante entender a corrida como muito mais do que uma mera atividade física. Ela também é uma tremenda atividade mental, e os benefícios dela advindos não se resumem a uma melhora em alguns minutos no seu tempo. Parafraseando James Fixx, não se preocupe com quantos anos a corrida vai aumentar em sua vida, mas com o quanto de vida ela vai aumentar em seus anos.

Você gostaria de fazer algum comentário final?

JRF: A corrida faz parte da minha vida. É quase tão importante como o meu trabalho. E fico muito feliz em ter passado isso para minha família, pois assim podemos correr juntos e compartilhar muitas emoções.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

O dia em que virei maratonista – parte 3

No início do ano, meu pai disse uma frase que se tornou a minha favorita sobre a maratona:
“A primeira metade é do cientista e a segunda, do artista.”

Eu já havia corrido os meus bem conhecidos 21km com a cabeça, administrando ritmo, hidratação e suplementação, e até mesmo a emoção. Agora chegara a hora de correr com o coração...

O Maurício, pai da minha amiga Mari Vilella, já havia corrido a maratona de Québec, e me alertou para que eu fosse preparada para correr duas provas, porque depois da metade, a temperatura subiria muito. Meu treinador, Marco Antônio Oliveira, disse que, além disso, eu teria subidas para enfrentar. Por esses motivos, ele dizia que a maratona de Québec não era uma prova fácil – ela não era nada favorável para quem buscava performance. Mas como eu só buscava completar a minha primeira maratona sem sofrimento e não estava preocupada em “fazer tempo”, não haveria problema.

Assim, eu que corria num ritmo médio pouco abaixo de 6min por km, senti a mudança de dificuldade da prova pelo km 24, onde começaram as subidas. Em paralelo, meu ritmo caiu.

Não importava. Eu havia chegado até ali e não tinha nenhuma marca para superar, a não ser a da distância. A toda hora eu pensava no meu treinamento e no que vocês escreveram pra mim. Pensava em todos que me deram exemplo, e nos que disseram que meu blog estava estimulando-os a praticar esportes. Por várias vezes cantei internamente “Don’t stop me now”, do Queen, que a Marcela Camargo me mandara antes de eu embarcar:

“Cause I'm having a good time having a good time. I'm a shooting star leaping through the sky. Like a tiger defying the laws of gravity. I'm a racing car passing by like Lady Godiva. I'm gonna go go go. There's no stopping me. I'm burning through the sky Yeah! Two hundred degrees. That's why they call me Mister Fahrenheit. I'm trav'ling at the speed of light”


Tá bom que eu estava beeem longe de estar na minha melhor velocidade (quem dirá na velocidade da luz! rs), mas eu estava aproveitando muito aquele momento, como eu me propora desde início da viagem.

Cada subidinha vencida era uma pequena conquista. Em alguns momentos batia maior cansaço e eu andava um pouquinho, mas daí queria logo continuar correndo, e continuávamos. Lembrei também do vídeo que a Tauanna me enviou na véspera, dizendo que tinha certeza que eu conseguiria e que em nenhum momento duvidara. Ela também dedicou pra mim a música “Pumped up kicks”, que ela sabia que eu gostava, porque dizia: “You better run, better run faster than my bullet”.

Olhei para as minhas unhas vermelhas (que sim, duraram bem até lá! Obrigada, Isabel!) e pensei: “aaah, eu sou poderosa!” rs. Ou como já diria a querida blogueira Giselli Souza, “sou uma diva que corre!” Lembrei-me da Giselli, da Aurea Bisan, e da Bia Ramos, que também nesse ano tinham completado sua primeira maratona.

Pronto, eu tinha reunido todos os pensamentos positivos do mundo! A essas alturas, minha mãe já teria acabado os 21,1km dela e eu ficava feliz por ela, que estaria nos esperando na chegada. Eu tinha meu pai ao meu lado, me apoiando a cada vez que eu ameaçava cair no choro. Era muita emoção concentrada em uma pequena pessoa só!

Km 25, km 27, km 30... eu já tinha feito todos esses treinos! Era tudo conhecido, cansava, mas eu já havia passado por eles. E mais uma vez eu estava deixando esses quilômetros pra trás, gastando a sola do tênis e ganhando mais quilometragem na vida. (Como meu pai brincou comigo depois, eu era uma mulher “rodada”! rs)

Já vínhamos subindo há um bom tempo. As subidinhas mais íngremes cansavam, mas o que pegava mesmo era a subida sutil que parecia não ter fim.

Foi então que no km 30 senti minhas coxas queimando! Bom, eu não conhecia o que viria a seguir. A partir daí, cada passo a mais era recorde! Eu poderia até parar por ali, que eu já teria tido uma conquista pessoal. Só que não! Cansaço era inevitável nessa altura do campeonato, mas como ele não estava me causando sofrimento, continuei correndo. Faltavam só mais 12km. Eram duas voltinhas na pista externa do Ibirapuera!

Cruzamos uma longa ponte sobre o rio. E por algum tempo não tivemos torcida. Algumas pessoas passavam pedalando em uma ciclovia que ladeava a larga faixa reservada à corrida. Éramos apenas nós corredores, nosso suor e nosso silêncio, o qual eu muitas vezes cortava com uma espécie de choro seco ou um esquisito grito que vinha de dentro. Do âmago. Como se minha energia tivesse sido concentrada no desenlace de um golpe conciso. De certa forma, isso me aliviava.

Não recordo das passagens exatas em que tomei os géis de carboidrato. Mas, após o primeiro, segui mais ou menos o intervalo de 45min entre um e outro, como o Marcão tinha me dito, e como eu já tinha experimentado nos treinos de 30km. Aliás, fiquei muito feliz por ter levado aqueles 3 géis no bolso, já que na prova eles entregaram um gel roxo de sabor bem ruim! (além de que vinha num copinho, então não tinha como guardar pra depois). Eu estava super feliz com o meu gel CLIF de raspberry - docinho que só ele!

Outra coisa legal que eles entregavam pelo caminho eram esponjas encharcadas de água. Esponjas azuis, amarelas e roxas também. A gente pegava aquela esponja macia e apertava nos braços, na nuca, no rosto, e até nas pernas. Era o céu! Tivemos esse refresco ao longo dos km 20, 27, 32 e 40.

Além das águas, dos isotônicos, dos géis, e das esponjas, eles estavam entregando banana no km 27. Comi um pedaço e guardei o resto no bolso. Logo resolvi jogar fora, porque queria meus bolsos livres e não tinha vontade nenhuma de comer. Eu só tinha sede! No km 34, foi a vez da laranja, e aquele pedaço cheio de suco foi muito bem vindo!

Nos quilômetros finais, alguém me cutucou e passou por mim: era a minha colega do tênis xará. Todos aqueles corredores ao nosso redor eram estrangeiros desconhecidos, mas éramos complacentes, pois dividíamos aquela experiência incrível da maratona. Os estrangeiros desconhecidos que estavam torcendo também me passavam algo de bom. Algo de muito bom. Era como se eles representassem uma extensão das pessoas que torciam por mim na maratona da vida. (Ok, ficou meio cafona isso, mas, quando se está emocionado, é isso que acontece: ficamos meio brega! rs)

A coxa já não queimava mais, mas eu estava cansada. Bem cansada! Naaada mais natural pra quem já estava correndo há tanto tempo! Meu pai olhou o relógio e adivinhei que eles estava fazendo os cálculos de tempo pra fecharmos a prova. - Você acha que por volta de 4h30 tá bom? - ele perguntou.

Eu disse que estava maravilhoso, que eu só queria chegar! Faltava pouco. Vi uns corredores que haviam acabado a prova e andavam nas calçadas, no nosso contra fluxo. Eles estavam com suas medalhas no pescoço e eu disse: “Vamos buscar aquela medalha!”

No meio da prova, algumas pessoas voluntariam-se para serem “coelhos”. Eles devem carregar uma plaquinha em que diz o tempo em que terminarão a prova. No início da maratona, estávamos próximos da coelha de 4h15. (Ela tinha orelhas e até tinha um pompom no shorts!) Agora ela passava por nós e eu já me conformara em não acabar a maratona naquele tempo.

Eu me sentia completamente viva e ficava impressionada com tudo que já havia percorrido. Não era fácil, mas, pensando bem, até que maratona era bem possível! Eu estava ali e estava conseguindo! Ao mesmo tempo, porém... as costas doíam, as pernas já haviam se acomodado com um passo lento, a lateral do tronco doía, eu não via a hora de chegar a próxima água... “Pai! Essa tal de maratona é foda!!” Com o perdão da palavra, mas esta era insubstituível naquela situação. Quem já correu maratona me entenderá!

Aliás, ainda bem que lá no meio da corrida e da torcida ninguém falava português, porque mais de uma vez, eu, com toda minha fineza, precisei descarregar um palavrão! Não tinha jeito! Qualquer construção linguística apresentável era complexa demais para aquele momento em que você é apenas um corpo e um turbilhão de sensações.

Faltavam 4, 3, faltavam 2km pra eu me tornar uma maratonista. Posto de hidratação à vista. Tomei o gel de gosto ruim que eles distribuíam, mandei pra dentro dois copinhos de água e um de isotônico. Tudo errado em termos de logística, porque muita água assim atrapalha a performance. Mas eu já não estava correndo como uma cientista e sim como uma artista, tirando forças sabe-se lá de onde. Eu só podia ser uma louca pra estar ali! Pra ter escolhido estar ali! No auge desse cansaço até disse pro meu pai que nunca mais correria outra maratona!

Não tive dores conhecidas: o joelho avisou que estava lá, mas tão logo chiou, logo ficou quietinho. A canela nunca mais soube o que era canelite. Nenhuma cãibra veio visitar minha panturrilha. O incômodo que eu sentia no peito do pé, semanas antes da viagem, desaparecera. As bolhas estavam em número muito pequeno para causar qualquer alarde. Em compensação... as costas e ombros reivindicaram seu direito de atenção! A lateral do tronco, que nunca comparecera aos treinos, resolveu causar estardalhaço! Faltava 1km e eu agradecia por meus ossos ainda estarem no devido lugar!

Já nem pensava mais. 200m e eu podia ver a linha de chegada. Meu pai me deu a mão e me puxou, literalmente. Corremos de mãos dadas. 100m. Os 100m mais longos da minha vida! Nem havia como sonhar em dar um sprint final (que eu já aprendera com o Marcão que não era certo, porque causava lesão). Contanto que eu continuasse correndo, eu chegaria. Ouvi alguém gritando o meu nome (havia lido no meu número de peito). Deu-me a força final. Mãos dadas com meu pai. Só mais um passo. Um pequeno passo para uma mulher. Um grande salto para a nova mulher. 

Stop. A vida parou. Ou foi o Garmin?
(Drummond, peço a sua licença para trocar o automóvel pelo Garmin!)

E então eu pisava no tapete vermelho que se estendera. Meu pai me levantou no ar e achei que aquele abraço iria me destroncar! rs Havia uma espécie de grade separando corredores de torcedores, e ali do outro lado: a minha mãe! A mais linda!

A parte de tirar uma foto do momento da chegada não funcionou tão bem. Minha mãe estava dando a volta, meu pai foi atrás dela e disse para eu esperar ali! Ali!!! E eu só queria a próxima água!...Esperei. Eles chegaram. Flash! Flash! Flash!

Só faltava "ela"... continuamos andando para buscá-la. E ela era minha. Merecidamente minha!
A medalha número 1 da tia Marina!


Galeria de flashs e números:






Alguns números que dizem bem menos do que as fotos e as palavras, mas todo mundo gosta de saber deles:
Meu número de peito: 1088 (Acabando com o ano do meu nascimento... achei demais!)
Distância percorrida: 42,540km (345m além dos oficiais 42,195km da maratona)! 
Tempo marcado no Garmin: 4h30min04s. 
Tempo oficial registrado pelo chip: 4:30:15.
Classificação por faixa etária (F 18-29 anos): 43/78
Classificação por sexo: 212/345

Por fim, para que vocês possam verificar cada um dos meus quilômetros, bem como a elevação do terreno; e para comprovar que eu estava lá e realmente completei a maratona (rs), segue o link do meu Garmin:

http://connect.garmin.com/activity/374763285




P.S: Lucas, meu irmão querido, vc não podia faltar aqui, porque pensei muito em você durante toda a maratona. Agora eu vou ter que voltar atrás do que disse no apogeu do meu cansaço... QUERO SIM CORRER OUTRAS MARATONAS! Não tão breve, mas quero! Topas me acompanhar? 

sábado, 14 de setembro de 2013

O dia em que eu virei maratonista - parte 2

... Finalmente, às 8h30 da manhã, foi dado o tiro da largada. "BUM!" Começou. Eu estava ali, correndo a maratona, e isso era real...

Logo veio a placa de 42km. Longe de significar o fim... era o começo! Havíamos percorrido os 195m e faltavam 42km! As plaquinhas deles eram invertidas, mostrando sempre quanto faltava. Como no meu relógio Garmin eu via a distância já percorrida, até que essa prática deles foi interessante. (Fazer a conta não é bem simples, mas, em 42,195 km, nem sempre você pode contar com o intelecto). Outro detalhe feliz: As plaquinhas eram em quilômetros e não em milhas. 

Como eram apenas 1448 corredores, não foi aquela loucura de muita gente grudada, e assim a massa de corredores não nos impedia de ver o belo caminho que percorríamos. Fazia sol, a sensação térmica era bem agradável e devia estar por volta de 14 ou 15o C.

Vi um tênis rosa igual ao meu! Aproximei-me da corredora e disse: “I like your shoes!” Ela viu os meus e sorriu!

Começamos correndo em uma rua mais pacata, passando por casas residenciais e comerciais. Já logo no começo, alguns moradores estavam nas calçadas pra ver a maratona passar, nos dizendo coisas de louvor. 

Aqueles torcedores deram um tempo em sua vida local para participarem um pouquinho da vida de cada um que estava de passagem. Eles faziam o som de palmas, exibiam cartazes com frases encorajadoras ou engraçadas e gritavam em francês ou inglês. 

O que me marcou logo no início foi um grito de "BON VOYAGE!". Não tenho certeza se foram essas as palavras, mas a percepção de tê-las ouvido, bastou. Lembrei-me do meu treinador desejando uma boa viagem antes do meu primeiro treino de 30 km (http://correndodemais.blogspot.com.br/2013/07/meu-primeiro-treino-de-30km.html). E ali estava eu, começando uma nova viagem! (Uma viagem dentro de outra). E como ela seria longa, associei a frase em francês com outra em inglês, que eu nem sabia de onde vinha, mas ficou piscando na minha cabeça: "ENJOY THE JOURNEY". Eu havia decidido: já que eu estava ali, curtiria a paisagem e cada quilômetro! 

No começo isso foi fácil. Corríamos tranquilamente e parecia que cada quilômetro chegava e passava num tapa. Assim fomos indo. Na cidade de Lévis, onde a corrida teve início, passamos no meio de parques. Uma vista completamente diferente daquela das corridas de rua em São Paulo. Correr por ali era deveras aprazível. Verde de todos os lados. Sem contar que a topografia de todo o início da prova nos era favorável: era plana e até com descidas (daquelas nem tanto perceptíveis aos olhos, mas sim às pernas).

Vi outro tênis rosa igual ao meu! Aproximei-me desta outra corredora de bom gosto e disse: “I like your shoes!” Apontei os meus e ela entendeu! Sorriu e disse que eles estavam indo bem! (Mais para o final da prova ela cruzaria comigo de novo, apontaria para o meu tênis e me daria força!)

Continuamos. Passamos por casas maravilhosas, por algumas bem mimosas, e lá estavam aqueles desconhecidos, nos dando uma impulsão de alegria com suas palmas e dizendo que estávamos indo bem!

Lembro-me de ouvir “carruagem de fogo”, daí já era impossível não se emocionar desde o início!

Logo depois um cartaz dizia: "CHUCK NORRIS NEVER RAN A MARATHON, YOU GOT THAT!" Impossível não rir e se animar!

Um pouco à frente, haviam ligado o som e estava tocando YMCA! É claro que eu levantei os braços pra dançar junto com a torcida! Era impossível não curtir essa viagem! 

De repente, entre os moradores que viam a maratona passar, avistei três menininhas enfileiradas com a mão levantada. Passei batendo nas mãos das três. Era completamente impossível não se motivar!

Os quilômetros iam passando e eu ainda não havia chegado à metade da prova. Sempre havia postos de hidratação. Distribuíam água e, muitas vezes também, isotônico... Bebia uns dois golinhos em cada um dos postos, como o Marcão me ensinou, e continuava correndo tranquilamente.

Havia tomado metade do meu primeiro gel com 1 hora e pouquinho de corrida, por volta do km 11. Eu só tomava quando via que haveria água em seguida, para poder dar uma golada após aquele sabor doce do carboidrato. 

Mil coisas passando pela cabeça, e às vezes falava uma ou outra coisa pro meu pai, que me acompanhava. Quando ele via que eu estava falando muito, ele já me cortava. Assim tentei me manter em silêncio para poupar energia. Os corredores estavam, em geral, bem silenciosos e concentrados nos seus passos. Até estranhei quando umas senhoras correndo por perto não paravam de tagarelar!

Por quase todo o caminho, avistávamos o rio. E em alguns momentos ele ficava do nosso ladinho. O vento soprava contra, e isso teoricamente dificultava a nossa corrida, mas era muito gostoso e refrescava o calor. Abaixo, vocês podem verificar o mapa da maratona:

Por volta do km 20, meu pai parou para ir a um banheiro (havia alguns químicos em vários pontos do percurso). Ele disse para eu continuar, que ele me alcançaria. Como não estávamos cercados por um mundo de gente, isso era possível. Falei pra ele procurar por um boné e um tênis rosa. Continuei sozinha e logo meu pai veio se juntar a mim. Havíamos cruzado a metade. Faltava meia maratona. E eu me sentia muito bem. Como se tudo que veio antes, tivesse servido como aquecimento. Agora sim a maratona começava a começar!

(continua no próximo post...)

sábado, 7 de setembro de 2013

O dia em que eu virei maratonista - parte 1

Acordei às 5h20 da manhã no tão esperado dia 25 de agosto de 2013. É verdade que eu já tinha acordado algumas vezes antes, mas, graças a Deus, não tinha passado a noite em claro.

Acordei sem sono, sem medo, ou traço de arrependimento. A ansiedade havia dado lugar para uma grande vontade de ir além. Uma vontade de conquistar.


Eu viajava com meus pais e tios. E naquela manhã, eu acordava num quarto de um castelo. – Para alguns momentos na vida, extravagâncias como essa valiam a pena. – Apesar disso, o castelo-hotel não servia café da manhã. Das nossas comprinhas do supermercado, comi pão com cream cheese + geleia e um pedaço de uma banana de casca vermelha. Tomei chá, preparado pela minha mãe, com a água quente da cafeteira do quarto.

Sem muita demora, vesti a roupa que eu escolhera com carinho: um short mais compridinho, para não causar atrito entre as pernas. Por cima dele, uma bermuda mais soltinha, que tinha um bolso de cada lado. (Eu precisava ter bolsos para guardar os géis de carboidrato.) Vesti o top que eu achava mais confortável e uma camiseta de manga curta e tecido levinho – ela era bonita e combinava com meu tênis rosa. Coloquei o relógio Garmin no pulso e o frequencímetro abaixo do top, por baixo do qual coloquei micropore e passei um “protetor” que serve como uma vaselina pra proteger do atrito, mas não é melecado (comprado na feira da maratona, no dia anterior).


Fui ao banheiro. Passei vaselina no pé, para não fazer bolhas. Coloquei uma meia grossinha para proteger bem e calcei meu Wave Sayonara. De repente, o pé começou a coçar! Arranquei a meia e coloquei uma mais fina. Ufa! Peguei uma camiseta de manga comprida para proteger do frio da manhã (depois a guardaria na mochila do meu pai que deixaríamos no guarda-volumes). Boné na cabeça. Protetor solar no rosto.

Nos bolsos, guardei 3 géis de raspberry da marca CLIF, que eu tinha gostado muito quando experimentei na meia maratona de Disney. Meu técnico Marcão havia dito que era a melhor marca! E como não encontramos no Brasil, compramos lá em Québec, na feira da maratona. Detalhe: na prova eles distribuiriam gel em alguns postos do percurso, mas eu preferi me garantir com aquele que eu já conhecia e gostava.

Era hora de sair. Meu pai e eu precisávamos chegar até às 7h00 na área de onde sairia a balsa para a cidade de Lévis. Depois da travessia, um ônibus nos levaria para o local da largada. Minha mãe iria em seguida , com meu tio, para outro ponto da cidade de Québec, de onde sairiam ônibus que os levariam para a largada da meia maratona (exatamente na  metade do mesmo percurso que  eu faria).

Caminhando com meu pai do hotel até a balsa, rezamos.

Adiante, avistamos nossos companheiros daquele desafio. Então, fomos nos juntar aos bons! Naquela manhã também haveria a corrida de 10 km e a de 21,1 km, mas os participantes dessas estavam em outros locais. Naquele pedacinho eu estava cercada de “gente grande” de todas as idades, corpos, nomes e rostos. Certamente, muitos deles eram “veteranos de guerra”. E eu estava lá para tentar uma vaga nesse time de resistentes.

Logo entramos na balsa. Fiquei com meu pai na parte de dentro, pra protegermos do vento gelado, e só saímos um pouquinho pra ver a linda paisagem. Do outro lado do rio estava o "nosso" castelo! (Não levamos máquina fotográfica, mas salvamos aquela vista panorâmica na nossa memória). Alguns corredores encontravam-se sozinhos; outros, com amigos ou familiares. Todos, porém, pareciam concentrados. A barca movia-se silenciosa. Eu, no meu ímpeto interno, queria conhecer todas aquelas pessoas e saber de suas histórias até ali. Mas também fiquei quietinha... Foi quando ouvimos alguém falando em português.
  
Dois amigos brasileiros. Marcio e Luis Gustavo. O Marcio também iria debutar na maratona. E como Brasil é Brasil, de repente já éramos antigos conhecidos. Sentamos do lado deles no ônibus. Chegamos num complexo fechado, que era um amplo saguão de hotel. Lá tinham grandes banheiros limpíssimos (muiiiito melhor do que se fossem banheiros químicos!). Pela primeira vez a fila das mulheres era menor. Isso se devia ao fato de estarmos em menor número (dos 1448 participantes, 1082 eram homens e 345, mulheres).

Ali no saguão também cruzamos com o Bruno Bueno, outro brasileiro que havíamos conhecido no dia anterior, na feira da maratona. (Aliás, hoje percorri a lista dos participantes desses 42,195 km de Québec e descobri que encontramos todos os outros 3 brasileiros inscritos ali!)

O frio começou a ir embora. Tirei a manga comprida, pra ir me aclimatando. Fomos procurar o guarda volumes. Era num caminhão estacionado do lado de fora. Saímos. A música que estava tocando começou a me contagiar! "We've come too far to give up who we are. So let's raise the bar and our cups to the stars. She's up all night 'til the sun. I'm up all night to get some. She's up all night for good fun. I'm up all night to get lucky"

Foi nesse embalo que se sucederam outras tantas músicas animadas. Eu queria viver aquele momento e nenhum outro! Tomei um pouco d'água que a organização tinha se encarregado de providenciar. A estrutura da prova era fantástica e eu estava super entusiasmada com aquela concentração inicial!

Ficamos conversando com nossos novos amigos, até que começou a contagem regressiva de minutos e fomos nos posicionar um pouco mais pra perto da largada. Meu pai tinha dito que correria essa maratona ao meu lado. Não queria lhe pedir isso, já que ele diminuiria muito o ritmo dele, mas confesso que fiquei feliz e isso me deu maior segurança.

Finalmente, às 8h30 da manhã, foi dado o tiro da largada. "BUM!" Começou. Eu estava ali, correndo a maratona, e isso era real.

(continua no próximo post...)

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Correr, cair, e levantar!

Fiquei de continuar a história dos “ossos do não ócio” (http://www.porissoeucorrodemais.com.br/2013/08/ossos-do-nao-ocio.html). Pois bem, aqui vem ela:

Desde que aprendi a andar, constatei que a queda eventualmente aconteceria quando eu estivesse em maior velocidade. Mas é claro que eu não me lembro de nada disso, e estou apenas supondo que tenha acontecido! rs

Desde que adotei a corrida como atividade física (e desse tempo tenho lembranças mais claras), “tropecei”, “escorreguei”, “caí de maduro”, “não sei o que aconteceu”. O fato é que vire e mexe estava eu com joelhos, pernas, e mãos raladas. Parecendo criança levada ou desastrada, que não fica quieta e vai tropicando em tudo quanto é canto. Boa notícia: do chão, ninguém passa!

Então chegou 2013 e com ele o sonho da maratona. Era véspera de dia das mães. Parque do Ibirapuera lotado. Meu treino seria de 7km, rodando num ritmo de 6min por km. Eu estava um pouco irritada com alguma coisa que já nem lembro mais o que era. Logo no começo quis imprimir uma velocidade desnecessária nas minhas passadas e, antes mesmo de completar 1km, tropecei, escorreguei, sei lá o que aconteceu, mas caí com tudo na terra. Senti uma dor de pancada muito forte no joelho esquerdo. Dessa vez não tinha sido apenas um joelho ralado. Sorte que minha mãe vinha correndo atrás e me ajudou a levantar e lavar o machucado. Foi impossível continuar. Voltei andando/mancando para o clube (pertinho do parque), para ir à enfermaria. Peguei gelo e logo minha mãe chegou (já tendo corrido 6km) para me levar pra casa. O joelho inchou, inchou, e ficou parecendo o joelho de um elefantinho! Passei o dia mancando, com uma faixa no joelho, e aquele humor de pessoa chata e carente. A verdade é que eu estava preocupadíssima com o fato de que enfrentaria uma maratona em menos de 4 meses. Quando meu pai chegou, falou para eu parar de supervalorizar tudo aquilo, e disse que não era caso de eu ir ao pronto socorro. Então tomei antiinflamatório, fiz gelo, e repouso.

Como contei no primeiro post do blog, essa queda surgiu como um clímax na minha narrativa, de modo a tornar o treinamento mais emocionante. (Já que não dava pra voltar atrás, melhor mesmo era pensar assim e aprender com os erros). Passei uma semana parada! Nem me aguentava mais em mim. Cinco dias depois, ainda com o “joelho-bola”, fui ao PS fazer um raio X. Não era nada! Claro que meu pai disse: “Eu não disse?!” (Mas eu precisava dessa certeza para me despreocupar).

Na semana seguinte voltei aos treinos: caminhada! Na outra, já podia intercalar corrida e caminhada. E na seguinte, voltei a correr. O joelho ainda dizia que estava lá, mas foi gradualmente melhorando... Foi nesses momentos que eu compreendi o quanto gostava de correr e o quanto eu queria correr essa maratona (que chegará em 11 dias)!

Aproveitei o meu “repouso forçado” para descansar, para tirar fotos do parque Ibirapuera, e para recuperar meu pé das terríveis bolhas.

Elas eram outro “osso do ofício”. Para evitá-las, sempre paramentava as laterais internas do pé com micropore, o que ajudava um pouco, mas não muito. Meu treinador falou que passar vaselina no pé ajudava, e também sugeriu que eu procurasse algo apropriado naquelas lojas de palmilhas. Comprei um apetrecho de silicone feito para quem tem joanete, mas que se encaixava pelo dedão e cobria exatamente a parte do meu pé direito que ficava vulnerável às bolhas. A moça da loja disse que aquilo poderia me ajudar. Usei por um tempo e gostei do resultado. Protegia. Até que senti um incômodo no pé no primeiro treino um pouquinho mais longo que usei o apetrecho, e resolvi abandoná-lo. 


As bolhas continuavam lá. Finalmente, fui tentar a vaselina. Essa ajudou! O ótimo solado do meu tênis novo (usado para os treinos longos), e a podóloga que deu um trato nos meus pés (http://www.porissoeucorrodemais.com.br/2013/06/meus-pes-meus-queridos-pes.html), também contribuíram. E é com extrema alegria que eu lhes declaro que: as bolhas praticamente deixaram de ser “ossos”! rs

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Filhos de corredor, corredores são

Hoje foi dia de corrermos com ele!


E minha homenagem a ele foi escrita pela Giselli Souza, que soube tão bem transformar o que lhe contei em uma linda história de pai e filha, correndo pelo mundo e pela vida...

Segue o link: http://divasquecorrem.com/divas-que-inspiram/meu-pai-meu-primeiro-treinador/

Aliás, indico o blog da Giselli (Divas que Correm) a todos vocês, especialmente às meninas! ;)

domingo, 23 de junho de 2013

MAR-(I)(ATO)-NA

Hoje, brincando com as palavras, descobri que entre mim, “MAR- I –NA” e a tal da “MAR – ATO – NA”, existe apenas um hiato. E hoje, esse hiato tem a duração de apenas 2 meses e 2 dias. O tempo passou, mas de forma muito produtiva.

Sobre o treinamento pra maratona, o Marcão tinha nos lançado a pergunta: “Vão encarar ou vão afinar?” Em 21 de janeiro, meu pai respondeu: “A resposta de todos aqui de casa é: Vamos encarar!" (todos éramos eu, meu pai e meu irmão... minha mãe tinha escapado dessa!). Daí, tivemos um tempinho para nos alinharmos tecnologicamente: criamos emails, respondemos relatório, trocamos telefone e marcamos um primeiro skype.

Para começo de conversa, minha primeira conversa no skype com o Marcão durou cerca de 1 hora e meia, se não mais. Ainda era tudo uma grande novidade. Anotei um monte de coisas, como numa aula instigante, em que você não quer perder nenhum detalhe. Depois dessa primeira “aula” eu já tinha uma série de lições de casa. O Marcão cercou por todos os lados.

Escaneei e mandei pra ele meu ergométrico (feito em novembro de 2012) e exames gerais feitos em 2007. Estava na hora (ou passava dela) de retomar a ida aos médicos!

Tirei foto do meu treino na academia, e mandei pro Marcão. Marquei nova avaliação física com o Carlinhos, para que ele montasse um treino focado na maratona.

Marquei ortopedista, endocrinologista, e nutricionista. Fiz raios x, escanometria óssea, exames de sangue, bioimpedância (que analisa sua composição corporal), e fiz (e faço) dieta.

Como eu já sabia, a escoliose (de origem hereditária no meu caso), continuava lá, assim como aqueles milímetros de diferença de uma perna pra outra. O Dr. Sidney, que além de ótimo ortopedista é triatleta, disse que eu deveria voltar a fazer RPG (reeducação postural global), e usar palmilha.

A endócrino, Dra. Vera, disse que meus exames estavam ótimos (quase que não poderiam estar melhores).

A Alessandra, nutricionista, ficou contente que, depois de um mês de dieta, perdi cerca de 3,5kg de gordura, sendo que na balança eu havia perdido 1,8kg (ou seja, tinha ganhado massa magra).

Em casa, passei a medir a frequência basal. Pelo menos 3 vezes por semana, anotava meus batimentos cardíacos ao acordar.

Enquanto tudo isso... eu treinava. Escolhi o período da manhã, antes de ir de trabalhar.

Terça, sábado e domingo eram reservados pra corrida. E domingo era dia de treino mais longo. Segunda e quarta eu ia à academia do clube Ipê. Quinta era meu “day off” (meu irmão diz que é muita moleza). Sexta fazia spinning, ou quando acordava cansada (por ter aula às quintas à noite), fazia apenas uma bicicleta ergométrica no prédio.

E foi mais ou menos assim que comecei essa séria brincadeira...

domingo, 9 de junho de 2013

Como tudo começou

A corrida apareceu na família com meu tio Paulo, que incentivou meu pai, que se casou com minha mãe. 

Dessa história de amor, dois espermatozoides fecundaram óvulos. O primeiro que ganhou aquela corrida deu origem a mim. Dois anos e meio depois, o vencedor da corrida deu origem ao meu irmão. Desde muito cedo, sabíamos que pra viver, era preciso correr!

Após o casamento, meu pai pôs minha mãe pra correr (apenas literalmente, ainda bem!). Esse também seria o destino dos dois filhos, tão logo suas articulações estivessem preparadas para a prática da corrida. Antes de isso acontecer, no entanto, todo santo domingo, eu e o Lucas éramos acordados para andar de bike, acompanhando meu pai e minha mãe em sua corrida. (Nos domingos de manhã, muitos iam à missa. Nós íamos ao Ibirapuera, e essa atividade também era sagrada).

Mas, nem sempre tudo foi flores... A preguiça ainda fazia parte do meu dicionário e muitas vezes eu torcia para que eles fossem correr e me deixassem dormindo. Depois de um tempo, a bike começou a ficar em casa, e comecei a correr com meus pais. Por volta dos 10 anos de idade, meu pai, já então diretor da CORPORE (associação de corredores que organiza corridas de rua), me levava para corridas infantis. Muitas vezes, porém, isso tudo ainda era algo parecido com uma obrigação. Como minha mãe sempre dizia, corríamos por “livre e espontânea pressão”! 

E depois de “aquecida” nessa panela de pressão, comecei a pegar gosto pela coisa.

Lá por volta dos meus 15 anos, passei a correr de verdade. Não que antes fosse de mentira, mas é que dali em diante, a corrida passou a fazer parte da minha vida de um modo meu. A decisão de correr já não era dos meus pais, mas minha. O incentivo continuaria sempre (e certa cobrança também), mas eu já sabia da importância da atividade física...

Como toda menina, fiz balé. Depois tentei ginástica olímpica, jazz, vôlei e tênis (esses dois últimos, ninguém jamais diria!)... Fiquei um bom tempo na natação. Fiz dança contemporânea e karatê. Na faculdade, experimentei até o judô. E durante todo esse tempo, a corrida sempre esteve ali...

Como já faz 10 anos, e daquela época não temos tantos registros, é difícil dizer quando fiz meus primeiros 6, 10, 15, ou 21km...

Sei que no final de 2006, corri uma São Silvestre (15km), debaixo de muita chuva. Lembro-me de passar pela Sanfran e dizer: “Mãe, olha a minha escolinha!”... Dois meses depois isso seria realidade. E foi então que eu entrei para a Equipe Flecha, como fundista. Em 2007 e 2008, eu não faltava por nada aos treinos  de atletismo (no belo horário das 22h à meia noite). A questão é que em 2009 decidi que esses treinos não correspondiam exatamente ao que eu mais gostava: correr longas distâncias. (As provas femininas de fundo mais longas tinham 3km.)

Sei também que em abril de 2008 corri minha primeira prova de meia maratona, pela CORPORE (agora todos vocês já sabem que se a maratona tem 42km, a meia tem 21km).

Pois bem, esse era só o começo... Nem fácil, nem tão difícil, mas certamente uma largada.