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segunda-feira, 29 de junho de 2015

Meia Maratona de Lisboa

Três meses atrasada, cá venho apresentar-lhes a famosa meia maratona de Lisboa!

Já contei para vocês sobre a feira da corrida e a sobre os 7km da Vitalis Jamor, que ocorreram na véspera: http://www.porissoeucorrodemais.com.br/2015/05/vitalis-7km-jamor.html

Pois, acordamos (eu, meu pai e minha mãe - que estavam me visitando) no dia 22 de março de 2015, tomamos um café da manhã, nos trocamos e fomos encontrar nosso primo e amigos que estavam hospedados a um metrô de distância. Manhã de provinha de corrida tem que ser sempre planejada, porque começa cedo.

Pegamos o comboio da fergatus (trem) na estação Roma-Areeiro e descemos na estação de Pragal, já do outro lado do rio Tejo. A corrida começaria do lado de lá, aos pés do Cristo Rei, em Almada. 

eu e meu pai chegando na estação de comboios de Pragal
mãe e pai no comboio da Fergatus

Descendo do comboio tivemos uma caminhada de uns 15 min até chegar perto de onde seria a largada, nas portagens (nos pedágios) da Ponte 25 de abril. Comecaríamos a corrida cruzando aquela Golden Gate Lisboeta.

Felicíssima com meus pais, com essa vista linda e animação pré-prova

Tudo muito lindo por ali, emoção brotando no peito, e o calor da primavera mostrando que chegara. Abandonamos os casacos e outras coisinhas com a Elda, nosso anjo-guarda-volumes, que nos encontraria na chegada. Pasmem, a organização não nos providenciava guarda-volumes.

Aos pés do Cristo Rei (o Cristo Redentor dos portugueses)
Havia um mundo de gente. A população de Portugal parecia ter desembarcado ali, além dos turistas que haviam planejado sua viagem para estarem em Lisboa naquele dia. (E nesse quesito eu já me considerava local).

Eu e a Ponte 25 de abril (e mais mil pessoas)

Diziam haver 40mil incritos, sendo "apenas" 15 mil corredores da meia, e os outros tantos mil, corredores ou caminhantes dos 7km.

Minha mãe Marisa, meu pai Reynaldo, eu, meu primo Wagner, nosso amigo Rogério, aguardando o tiro da largada
Lá fomos nós, começar uma super meia maratona, daquelas que corredores gostam de ter no currículo. Confesso, porém, que por toda sua fama, eu esperava um pouco mais... Não digo em tom de reclamação, porque a corrida foi maravilhosa e não é naaaada fácil organizar uma prova dessa dimensão! Mas, como crítica construtiva.

1. Seria ideal que fizessem a largada em ondas (por ritmo) e, ainda e especialmente, que a largada dos 7km e dos 21km tivessem algum intervalo. Isso porque a gente vai correndo na ponte sem conseguir desenvolver a corrida. Lá estão caminhantes com mochila, crianças, carrinhos de bebê, pessoas que param para fotografar... Estava tão parado, que eu tive a pachorra de tirar uma foto durante uma prova de corrida, o que nunca faço. Eis aqui um pedacinho do drama (que até nem está tão trágico dessa perspectiva!):

Correndo na Ponte 25 de abril

Para correr por ali, só desviando, e ainda assim, era difícil, era um zig-zag entre uma multidão de ritmos e objetivos muito heterogêneos. A largada em ondas facilitaria um pouco a corrida.

Apesar de os 2 quilômetros iniciais terem sido devagar quase parando, e de o piso em grande parte da ponte ser feito de uma grade - que deve ser péssima em termos do impacto nas nossas queridas articulações, o visual de correr atravessando a ponte foi recompensador! Cruzar o Tejo correndo foi lindo, ainda mais porque o vejo agora com tanto carinho.

No meio da ponte, cada um de nós seguiu seu próprio ritmo em zig-zag, e separamo-nos todo. Logo estava cada um por si. 

2. Erro da minha parte: ter ido de calça, sabendo que havia possibilidade de esquentar. Sem contar que era uma calça comprada aqui em Portugal, para aguentar o inverno daqui! Esquentou horrores e "ai, se arrependimento matasse"! Que fique de ensinamento pra vocês também: em provas logas que começam com frio, mas que vão acabar com calor: usem shorts, bermudas, saias de corrida (se não tiver o problema do atrito entre as pernas!).

E que não seja desculpa pra eu não ter feito a minha melhor meia, mas essa coisa de calor prejudica a performance da gente!

3. Outro erro: resolvi levar o celular, porque seria necessário para encontrar todos após a chegada de cada um. Até aí, ok, mas resolvi levar o celular numa daquelas capinhas que se amarra no braço, que eu nunca tinha usado. Ficava escorregando, me atrapalhando e resolvi segurar na mão! Boa ideia se a corrida fosse resolvida em poucos quilômetros, mas 21km segurando aquela capinha, passando da mão direita pra esquerda, da esquerda pra direita, foi quase como vestir as calças também nas mãos! 

Sabem aqueles erros de marinheiro de primeira viagem? Pois é... acontece que mesmo depois de umas já nem sei quantas viagens, lá estava eu cometendo esses erros... faz parte, acontece, é a vida, somos humanos... Mas, sinceramente, não inventem de testar usar coisas diferentes nas provas (especialmente as logas!), testem tudo nos treinos, eles também servem pra isso! ;)

4. Voltando ao percurso da prova, depois da ponte, depois da descida, a prova ficou mais plana e regular, mas o cenário ficou um tanto sem graça na minha opinião... Isso porque havia feito vários treinos à beira do Tejo e passando por tanto lugar lindo, mas pronto, não era possível colocar toda aquela gente a correr na ciclovia do Tejo... Tinham que usar mesmo as ruas. Mas descobri que não gosto muito de corridas em que você corre um longo período até um ponto e vira e corre todo esse percurso de volta. Não sei se é frescura da minha parte, mas achei desconfortável para o meu psicológico. Você corre vendo um monte de gente do outro lado que está anos luz na sua frente, e com a sensação de que falta ainda aquilo para voltar.  

Por isso que, pelo menos nos treinos (que quem bola o percurso sou eu), eu quero mais é diversificar meus caminhos!

5. Quanto aos incentivos, não achei que havia "plateia" nas ruas, torcendo pelos corredores, como em outras provas internacionais que corri, mas ao mesmo tempo, tive muito incentivo dos corredores do Correr Lisboa! Esse grupo de corrida que o Bruno e a Sandra criaram aqui é mesmo uma das boas surpresas dessa cidade. Sempre que cruzava com alguém com a mesma camiseta amarela, os chamados Vicentes, eu acenava ou dizia algo e eles também! Genial!

6. E tão geniais que eles são, lá estava a Sandra Ramos Claro na linha de chegada, fotografando os Vicentes no momento da chegada que sempre é emocionante, quer por um recorde pessoal, quer por uma sensação de missão cumprida, ou mesmo pelo mero fato de que você enfim pode parar!









E pronto, acabou, cruzei aquela linha de chegada, esperei minha mãe chegar e fomos encontrar os demais. Junto ao grupo já citado, tinham corrido os 7km a Luciana e a Sandra. E assim fica registrada mais uma corrida em Lisboa, mais uma corrida em família (e amigos que adotamos como família)!

Rogério, Lu, Elda, Wagner, Reynaldo, eu, Marisa e Sandra

domingo, 1 de junho de 2014

Meia-maratonando numa (Ale)manhã fria

O despertador tocou e precisávamos levantar naquela manhã fria de domingo, na Alemanha. No quarto de hotel, tomei um chá e comi alguma coisa que tínhamos das compras no supermercado.

Vesti uma bermuda que tinha zíper atrás, onde eu guardei um gel de carboidrato. A camiseta que escolhi era de manga comprida. Boné, Garmin, cinta do frequencímetro, meia, tênis, número de peito. Eu estava pronta. A sacola com uma troca de roupa para o pós-corrida já estava separada.

Todos prontos. Já no elevador, encontramos um alemão que também estava indo para a maratona. Apesar de termos visto mapas e pedido explicações, foi mais fácil segui-lo...

Saímos do hotel e, para nossa alegria...

"Chovia. Chovia uma triste chuva de resignação"
(verso do "Poema só para Jaime Ovalle", do Manuel Bandeira)

Resignada, saquei da sacola minha capa de chuva.

Seguimos o corredor alemão até a estação de metrô mais próxima dali. O transporte público era gratuito naquele dia para todos os inscritos na maratona de Düsseldorf. Acontece que, além do meu pai e do meu irmão, estávamos com a Ana, espanhola que meu irmão conhecera no intercâmbio e se juntara à nossa trupe dois dias antes, em Düsseldorf. Precisávamos comprar um bilhete de metrô para a Ana e não encontramos o lugar... Bem, ela estava com a gente e estávamos com pressa... o alemão que estávamos seguindo disse que naquele horário, por causa da maratona, não teria problema... E ele coroou a manhã com a frase: "No risk, no fun!" Não esquecemos mais (até porque saiu da boca de um alemão - de quem temos uma ideia de maior rigidez).


Passadas algumas estações, nosso novo amigo alemão disse para continuarmos e descermos na próxima, porque ele sairia ali para encontrar alguns amigos. Continuamos e seguimos outros passageiros com números no peito. Uma legião de encapuzados foi se reunindo. Todos procuravam abrigar-se um pouco daquela chuva, mas chegara a hora de guardar os casacos e capas no guarda volumes. E assim, não só as meias e os tênis, mas também nossas roupas começaram a ficar mais frias e pesadas.
meu irmão Lucas, prestes a debutar na maratona + eu + meu pai José Reynaldo, prestes a correr sua 13a. maratona

Caminhamos para a largada. A Ana teve tempo de tirar algumas fotos da gente. Ela me esperaria no km 21.


Na grade lateral, momentos antes da largada, muitas pessoas abandonavam suas capas e agasalhos.
Eis que a prova se inicia e os primeiros passos não encontravam espaço. Uma multidão nos cercava e correr era quase impossível.

O Marcão disse que eu não devia correr com meu pai e meu irmão, porque eles correriam os 42km, sendo que a segunda metade deles seria mais rápida que a primeira e eu correria apenas a primeira, e estava lá para buscar um recorde pessoal nos 21km.

No começo, meu pai foi me segurando, mas com 1,5km eu já criara asinhas nos pés e eles queriam voar mais rápido! Chegara a hora de eu seguir em frente, sozinha. Despedimo-nos e alcei meu vôo por entre diversos outros corredores.

Ainda havia muita gente aglomerada e eu ia me embrenhando pelos espaços vazios. Meu Garmin estava coberto com a manga comprida da camiseta e a proposta era exatamente não olhar nenhuma vez para ele. É claro que desde quando constatei que choveria do começo ao fim da corrida, fazendo tênis e roupas pesarem mais, eu já estava relevando aquela ideia de diminuir o tempo. De qualquer forma, eu já estava lá e, com ou sem recorde pessoal, eu decidi que aquele momento seria para me divertir.

Chovia e fazia frio, mas os quilômetros chegavam e passavam logo. Eu estava sozinha no meio de muitos estrangeiros e diferentemente de outras provas que corri no exterior, dessa vez eu não compreendia nenhuma frase que era dita ou que estava escrita nos cartazes exibidos por aquela gente que torcia nas ruas.

Não fosse por isso. Não deixei de festejar! Aqueles corredores ao meu lado estavam inscritos para os 42km, e como eu correria a metade disso, me sentia apta a fazer certas extravagâncias (das quais eles deviam se poupar) como: levantar as mãos para o alto, bater palmas, bater nas mãos dos torcedores, e gritar: "BRASIL!"

Às vezes sentia que um ou outro corredor olhava pensando: "Por que ela não poupa esse ânimo?" e muitas vezes me peguei pensando o quanto gostaria de explicar para eles que eu pararia no km 21, portanto, que não se preocupassem comigo ou que não se incomodassem se eu estivesse deixando alguns deles para trás! Deixei para trás um tão lindo com quem eu teria casado! rs. Percebi que ele queria ter me acompanhado, afinal, muitos homens não gostam muito de serem ultrapassados por mulheres! Mas, eu realmente não estaria naquele ritmo se fosse para encarar a maratona inteira!

Apesar disso, 21km era uma distância considerável e seria bem complicado clarificar a mente de pensamentos por todo aquele percurso. Acontece que todos os pensamentos me vinham à cabeça em outras línguas. Lá estava eu falando comigo mesma em pensamento, em inglês, em espanhol e até algumas coisas em francês. Por que cargas d'água? Bem, acho que era o espírito da viagem!

Lá estava eu, correndo de km em km no meio de desconhecidos. Dentre eles, marquei alguns que estavam sempre por perto. Um casal em que a mulher usava uma blusa rosa. Outro homem também estava sempre por perto, com uma blusa azul quase como quadriculada com tom de coral. Eram cores marcantes e eu decidi que não me afastaria muito dessas pessoas. Adotei eles como parâmetro para possivelmente estar mantendo um ritmo, que eu nem imaginava qual era.

O percurso era bem plano e isso facilitou muito a vida. Sempre que surgiam postos de hidratação, eu pegava um copinho de água, tomava os básicos 2, 3 golinhos e jogava o resto, para não ficar com o estômago pesado.

Me distraí algumas vezes e perdi uma ou outra plaquinha dos quilômetros e não queria perder a do 21. A essas alturas eu já havia pisado em poças caprichadas pra completar o enxarcamento do tênis. Eu queria chegar logo e comecei a perguntar se a marcação do 21 estava mesmo à frente. Conversei com um casal que me assegurou que ainda passaríamos pela metade. Contei que eu pararia ali e eles disseram que eu estava muito bem e que provavelmente conseguiria completar os 42 se quisesse. Fiquei um pouco tentada, confesso. Mas, eu não havia treinado como para minha maratona e eu não queria me arriscar a ter qualquer complicação ou lesão por um simples capricho de superação.

A marcação da metade da prova deles que seria a minha linha de chegada estava próxima. Então me despedi daquele casal simpático e fui "cruzar" a chegada que eu me determinara. E ela estava ali, junto do tapete que conectava-se ao chip, marcando meu tempo oficial para aquela distância. Pisei, levantei os braços em uma comemoração particular e logo bati no stop do Garmin. 1h55 e uns bons quebrados, mas que me mantinham abaixo da minha marca pessoal para os 21km de 1h57 e outros tantos quebrados!

Mãos e coração ao alto! E chovia. Chovia uma alegre chuva de bênção e satisfação.

sábado, 14 de setembro de 2013

O dia em que eu virei maratonista - parte 2

... Finalmente, às 8h30 da manhã, foi dado o tiro da largada. "BUM!" Começou. Eu estava ali, correndo a maratona, e isso era real...

Logo veio a placa de 42km. Longe de significar o fim... era o começo! Havíamos percorrido os 195m e faltavam 42km! As plaquinhas deles eram invertidas, mostrando sempre quanto faltava. Como no meu relógio Garmin eu via a distância já percorrida, até que essa prática deles foi interessante. (Fazer a conta não é bem simples, mas, em 42,195 km, nem sempre você pode contar com o intelecto). Outro detalhe feliz: As plaquinhas eram em quilômetros e não em milhas. 

Como eram apenas 1448 corredores, não foi aquela loucura de muita gente grudada, e assim a massa de corredores não nos impedia de ver o belo caminho que percorríamos. Fazia sol, a sensação térmica era bem agradável e devia estar por volta de 14 ou 15o C.

Vi um tênis rosa igual ao meu! Aproximei-me da corredora e disse: “I like your shoes!” Ela viu os meus e sorriu!

Começamos correndo em uma rua mais pacata, passando por casas residenciais e comerciais. Já logo no começo, alguns moradores estavam nas calçadas pra ver a maratona passar, nos dizendo coisas de louvor. 

Aqueles torcedores deram um tempo em sua vida local para participarem um pouquinho da vida de cada um que estava de passagem. Eles faziam o som de palmas, exibiam cartazes com frases encorajadoras ou engraçadas e gritavam em francês ou inglês. 

O que me marcou logo no início foi um grito de "BON VOYAGE!". Não tenho certeza se foram essas as palavras, mas a percepção de tê-las ouvido, bastou. Lembrei-me do meu treinador desejando uma boa viagem antes do meu primeiro treino de 30 km (http://correndodemais.blogspot.com.br/2013/07/meu-primeiro-treino-de-30km.html). E ali estava eu, começando uma nova viagem! (Uma viagem dentro de outra). E como ela seria longa, associei a frase em francês com outra em inglês, que eu nem sabia de onde vinha, mas ficou piscando na minha cabeça: "ENJOY THE JOURNEY". Eu havia decidido: já que eu estava ali, curtiria a paisagem e cada quilômetro! 

No começo isso foi fácil. Corríamos tranquilamente e parecia que cada quilômetro chegava e passava num tapa. Assim fomos indo. Na cidade de Lévis, onde a corrida teve início, passamos no meio de parques. Uma vista completamente diferente daquela das corridas de rua em São Paulo. Correr por ali era deveras aprazível. Verde de todos os lados. Sem contar que a topografia de todo o início da prova nos era favorável: era plana e até com descidas (daquelas nem tanto perceptíveis aos olhos, mas sim às pernas).

Vi outro tênis rosa igual ao meu! Aproximei-me desta outra corredora de bom gosto e disse: “I like your shoes!” Apontei os meus e ela entendeu! Sorriu e disse que eles estavam indo bem! (Mais para o final da prova ela cruzaria comigo de novo, apontaria para o meu tênis e me daria força!)

Continuamos. Passamos por casas maravilhosas, por algumas bem mimosas, e lá estavam aqueles desconhecidos, nos dando uma impulsão de alegria com suas palmas e dizendo que estávamos indo bem!

Lembro-me de ouvir “carruagem de fogo”, daí já era impossível não se emocionar desde o início!

Logo depois um cartaz dizia: "CHUCK NORRIS NEVER RAN A MARATHON, YOU GOT THAT!" Impossível não rir e se animar!

Um pouco à frente, haviam ligado o som e estava tocando YMCA! É claro que eu levantei os braços pra dançar junto com a torcida! Era impossível não curtir essa viagem! 

De repente, entre os moradores que viam a maratona passar, avistei três menininhas enfileiradas com a mão levantada. Passei batendo nas mãos das três. Era completamente impossível não se motivar!

Os quilômetros iam passando e eu ainda não havia chegado à metade da prova. Sempre havia postos de hidratação. Distribuíam água e, muitas vezes também, isotônico... Bebia uns dois golinhos em cada um dos postos, como o Marcão me ensinou, e continuava correndo tranquilamente.

Havia tomado metade do meu primeiro gel com 1 hora e pouquinho de corrida, por volta do km 11. Eu só tomava quando via que haveria água em seguida, para poder dar uma golada após aquele sabor doce do carboidrato. 

Mil coisas passando pela cabeça, e às vezes falava uma ou outra coisa pro meu pai, que me acompanhava. Quando ele via que eu estava falando muito, ele já me cortava. Assim tentei me manter em silêncio para poupar energia. Os corredores estavam, em geral, bem silenciosos e concentrados nos seus passos. Até estranhei quando umas senhoras correndo por perto não paravam de tagarelar!

Por quase todo o caminho, avistávamos o rio. E em alguns momentos ele ficava do nosso ladinho. O vento soprava contra, e isso teoricamente dificultava a nossa corrida, mas era muito gostoso e refrescava o calor. Abaixo, vocês podem verificar o mapa da maratona:

Por volta do km 20, meu pai parou para ir a um banheiro (havia alguns químicos em vários pontos do percurso). Ele disse para eu continuar, que ele me alcançaria. Como não estávamos cercados por um mundo de gente, isso era possível. Falei pra ele procurar por um boné e um tênis rosa. Continuei sozinha e logo meu pai veio se juntar a mim. Havíamos cruzado a metade. Faltava meia maratona. E eu me sentia muito bem. Como se tudo que veio antes, tivesse servido como aquecimento. Agora sim a maratona começava a começar!

(continua no próximo post...)

sábado, 7 de setembro de 2013

O dia em que eu virei maratonista - parte 1

Acordei às 5h20 da manhã no tão esperado dia 25 de agosto de 2013. É verdade que eu já tinha acordado algumas vezes antes, mas, graças a Deus, não tinha passado a noite em claro.

Acordei sem sono, sem medo, ou traço de arrependimento. A ansiedade havia dado lugar para uma grande vontade de ir além. Uma vontade de conquistar.


Eu viajava com meus pais e tios. E naquela manhã, eu acordava num quarto de um castelo. – Para alguns momentos na vida, extravagâncias como essa valiam a pena. – Apesar disso, o castelo-hotel não servia café da manhã. Das nossas comprinhas do supermercado, comi pão com cream cheese + geleia e um pedaço de uma banana de casca vermelha. Tomei chá, preparado pela minha mãe, com a água quente da cafeteira do quarto.

Sem muita demora, vesti a roupa que eu escolhera com carinho: um short mais compridinho, para não causar atrito entre as pernas. Por cima dele, uma bermuda mais soltinha, que tinha um bolso de cada lado. (Eu precisava ter bolsos para guardar os géis de carboidrato.) Vesti o top que eu achava mais confortável e uma camiseta de manga curta e tecido levinho – ela era bonita e combinava com meu tênis rosa. Coloquei o relógio Garmin no pulso e o frequencímetro abaixo do top, por baixo do qual coloquei micropore e passei um “protetor” que serve como uma vaselina pra proteger do atrito, mas não é melecado (comprado na feira da maratona, no dia anterior).


Fui ao banheiro. Passei vaselina no pé, para não fazer bolhas. Coloquei uma meia grossinha para proteger bem e calcei meu Wave Sayonara. De repente, o pé começou a coçar! Arranquei a meia e coloquei uma mais fina. Ufa! Peguei uma camiseta de manga comprida para proteger do frio da manhã (depois a guardaria na mochila do meu pai que deixaríamos no guarda-volumes). Boné na cabeça. Protetor solar no rosto.

Nos bolsos, guardei 3 géis de raspberry da marca CLIF, que eu tinha gostado muito quando experimentei na meia maratona de Disney. Meu técnico Marcão havia dito que era a melhor marca! E como não encontramos no Brasil, compramos lá em Québec, na feira da maratona. Detalhe: na prova eles distribuiriam gel em alguns postos do percurso, mas eu preferi me garantir com aquele que eu já conhecia e gostava.

Era hora de sair. Meu pai e eu precisávamos chegar até às 7h00 na área de onde sairia a balsa para a cidade de Lévis. Depois da travessia, um ônibus nos levaria para o local da largada. Minha mãe iria em seguida , com meu tio, para outro ponto da cidade de Québec, de onde sairiam ônibus que os levariam para a largada da meia maratona (exatamente na  metade do mesmo percurso que  eu faria).

Caminhando com meu pai do hotel até a balsa, rezamos.

Adiante, avistamos nossos companheiros daquele desafio. Então, fomos nos juntar aos bons! Naquela manhã também haveria a corrida de 10 km e a de 21,1 km, mas os participantes dessas estavam em outros locais. Naquele pedacinho eu estava cercada de “gente grande” de todas as idades, corpos, nomes e rostos. Certamente, muitos deles eram “veteranos de guerra”. E eu estava lá para tentar uma vaga nesse time de resistentes.

Logo entramos na balsa. Fiquei com meu pai na parte de dentro, pra protegermos do vento gelado, e só saímos um pouquinho pra ver a linda paisagem. Do outro lado do rio estava o "nosso" castelo! (Não levamos máquina fotográfica, mas salvamos aquela vista panorâmica na nossa memória). Alguns corredores encontravam-se sozinhos; outros, com amigos ou familiares. Todos, porém, pareciam concentrados. A barca movia-se silenciosa. Eu, no meu ímpeto interno, queria conhecer todas aquelas pessoas e saber de suas histórias até ali. Mas também fiquei quietinha... Foi quando ouvimos alguém falando em português.
  
Dois amigos brasileiros. Marcio e Luis Gustavo. O Marcio também iria debutar na maratona. E como Brasil é Brasil, de repente já éramos antigos conhecidos. Sentamos do lado deles no ônibus. Chegamos num complexo fechado, que era um amplo saguão de hotel. Lá tinham grandes banheiros limpíssimos (muiiiito melhor do que se fossem banheiros químicos!). Pela primeira vez a fila das mulheres era menor. Isso se devia ao fato de estarmos em menor número (dos 1448 participantes, 1082 eram homens e 345, mulheres).

Ali no saguão também cruzamos com o Bruno Bueno, outro brasileiro que havíamos conhecido no dia anterior, na feira da maratona. (Aliás, hoje percorri a lista dos participantes desses 42,195 km de Québec e descobri que encontramos todos os outros 3 brasileiros inscritos ali!)

O frio começou a ir embora. Tirei a manga comprida, pra ir me aclimatando. Fomos procurar o guarda volumes. Era num caminhão estacionado do lado de fora. Saímos. A música que estava tocando começou a me contagiar! "We've come too far to give up who we are. So let's raise the bar and our cups to the stars. She's up all night 'til the sun. I'm up all night to get some. She's up all night for good fun. I'm up all night to get lucky"

Foi nesse embalo que se sucederam outras tantas músicas animadas. Eu queria viver aquele momento e nenhum outro! Tomei um pouco d'água que a organização tinha se encarregado de providenciar. A estrutura da prova era fantástica e eu estava super entusiasmada com aquela concentração inicial!

Ficamos conversando com nossos novos amigos, até que começou a contagem regressiva de minutos e fomos nos posicionar um pouco mais pra perto da largada. Meu pai tinha dito que correria essa maratona ao meu lado. Não queria lhe pedir isso, já que ele diminuiria muito o ritmo dele, mas confesso que fiquei feliz e isso me deu maior segurança.

Finalmente, às 8h30 da manhã, foi dado o tiro da largada. "BUM!" Começou. Eu estava ali, correndo a maratona, e isso era real.

(continua no próximo post...)

domingo, 9 de junho de 2013

Como tudo começou

A corrida apareceu na família com meu tio Paulo, que incentivou meu pai, que se casou com minha mãe. 

Dessa história de amor, dois espermatozoides fecundaram óvulos. O primeiro que ganhou aquela corrida deu origem a mim. Dois anos e meio depois, o vencedor da corrida deu origem ao meu irmão. Desde muito cedo, sabíamos que pra viver, era preciso correr!

Após o casamento, meu pai pôs minha mãe pra correr (apenas literalmente, ainda bem!). Esse também seria o destino dos dois filhos, tão logo suas articulações estivessem preparadas para a prática da corrida. Antes de isso acontecer, no entanto, todo santo domingo, eu e o Lucas éramos acordados para andar de bike, acompanhando meu pai e minha mãe em sua corrida. (Nos domingos de manhã, muitos iam à missa. Nós íamos ao Ibirapuera, e essa atividade também era sagrada).

Mas, nem sempre tudo foi flores... A preguiça ainda fazia parte do meu dicionário e muitas vezes eu torcia para que eles fossem correr e me deixassem dormindo. Depois de um tempo, a bike começou a ficar em casa, e comecei a correr com meus pais. Por volta dos 10 anos de idade, meu pai, já então diretor da CORPORE (associação de corredores que organiza corridas de rua), me levava para corridas infantis. Muitas vezes, porém, isso tudo ainda era algo parecido com uma obrigação. Como minha mãe sempre dizia, corríamos por “livre e espontânea pressão”! 

E depois de “aquecida” nessa panela de pressão, comecei a pegar gosto pela coisa.

Lá por volta dos meus 15 anos, passei a correr de verdade. Não que antes fosse de mentira, mas é que dali em diante, a corrida passou a fazer parte da minha vida de um modo meu. A decisão de correr já não era dos meus pais, mas minha. O incentivo continuaria sempre (e certa cobrança também), mas eu já sabia da importância da atividade física...

Como toda menina, fiz balé. Depois tentei ginástica olímpica, jazz, vôlei e tênis (esses dois últimos, ninguém jamais diria!)... Fiquei um bom tempo na natação. Fiz dança contemporânea e karatê. Na faculdade, experimentei até o judô. E durante todo esse tempo, a corrida sempre esteve ali...

Como já faz 10 anos, e daquela época não temos tantos registros, é difícil dizer quando fiz meus primeiros 6, 10, 15, ou 21km...

Sei que no final de 2006, corri uma São Silvestre (15km), debaixo de muita chuva. Lembro-me de passar pela Sanfran e dizer: “Mãe, olha a minha escolinha!”... Dois meses depois isso seria realidade. E foi então que eu entrei para a Equipe Flecha, como fundista. Em 2007 e 2008, eu não faltava por nada aos treinos  de atletismo (no belo horário das 22h à meia noite). A questão é que em 2009 decidi que esses treinos não correspondiam exatamente ao que eu mais gostava: correr longas distâncias. (As provas femininas de fundo mais longas tinham 3km.)

Sei também que em abril de 2008 corri minha primeira prova de meia maratona, pela CORPORE (agora todos vocês já sabem que se a maratona tem 42km, a meia tem 21km).

Pois bem, esse era só o começo... Nem fácil, nem tão difícil, mas certamente uma largada.